Um tecto sem Céu

Terça-feira, Outubro 26

Tecto #4

O sol continuava imponente, porém a agressividade com que o tinha presenteado de manhã já se tinha esvanecido, brilhava agora num tom amarelo-torrado mais sereno e caloroso. Estava realmente um dia esplêndido.
Estacionou o carro, tirou a gravata, meteu-a no bolso do casaco e dirigiu-se, por fim, para a esplanada virada para o mar.
Gostava particularmente daquele café, não que houvesse um motivo especial,aliás, tinha começado a frequentar aquele espaço há apenas um par de anos atrás. No entanto, havia algo naquele sítio que o fazia sentir-se em viagem, fora
do País, longe da vivência quotidiana que o consumia. Talvez fosse o azul esverdeado do mar, ou aquelas cadeiras de metal vermelho em que o branco do primário teimava em se propagar com o uso, ou talvez fosse o simples facto de nunca ter encontrado ali ninguém conhecido. Provavelmente seria isso. Naquelas cadeiras sentia-se um estrangeiro. O facto de nunca ter comentado com ninguém sobre a existência daquele café, provava como permanecer desconhecido naquele espaço era valioso para si.Sentou-se e permaneceu em silêncio enquanto olhava o mar, durante uns bons quinze minutos, o tempo de ser atendido. Pediu um fino e uma tosta de queijo. Saboreou a tosta como se fosse a sua última refeição, o sabor do queijo derretido com orégãos misturou-se com o cheiro a mar. Sentiu-se ser levantado dois palmos acima da terra, fechou os olhos, e continuou a saborear aquela tosta com cheiro a mar. Quando voltou à Terra e abriu os olhos, sentiu-se zonzo de bem-estar, havia já algum tempo que não se sentia assim. Recostou-se para trás na cadeira, cruzou as pernas e acendeu um cigarro para dar como acabadas as festividades. Enquanto fumava o cigarro, apercebeu-se que alguém lhe fazia sinal ao longe. Tentou perceber quem seria, mas como estavam em contra luz não conseguiu reconhecer as pessoas, permaneceu sentado a fumar enquanto esperava que se aproximassem. Percebeu finalmente de quem se tratava, era o Ricardo acompanhado por uma rapariga cujo rosto não reconheceu, talvez fosse sua namorada. Ricardo era um antigo colega de trabalho, da altura em que trabalhou numa empresa onde exerceu funções de comercial, há cerca de quatro anos. Nunca tinha tido grande afinidade com ele, porém Ricardo comportou-se como se fossem grandes amigos, estranhou o facto, até por se recordar de Ricardo como uma pessoa discreta pouco dada a alaridos. Ricardo cumprimentou-o efusivamente e apresentou a sua companhia como sendo a sua namorada, chamava-se Cris (provavelmente abreviatura de Cristina). No momento que se preparava para a cumprimentar com um aperto de mão, ela precipitou-se para o cumprimentar com um beijo na face, gerou-se um daqueles momentos caricatos, muito parecido com aqueles em que duas pessoas quase se embatem e à última hora se desviam para o mesmo sítio, e quando uma das pessoas torna a corrigir a trajectória a outra faz exactamente o mesmo. Foi o que aconteceu, ao fim de várias tentativas, acabaram por se cumprimentar com um aperto de mão e dois beijos na face. Foi neste exacto momento que a sua vida começou a mudar de rumo. Ao cumprimentar Cristina com um beijo na face, sentiu um arrepio na espinha que o imobilizou.

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